Inocência que ainda nem existe no mapa promete luxo e renda: ‘só não trabalha quem não quer’

Passado quase um ano desde o lançamento da pedra fundamental da Arauco, empresa de celulose em processo de instalação em Inocência, no interior de Mato Grosso do Sul, o município sente os impactos do luxo prometido com déficit habitacional, do custo de vida elevado e da pressão na segurança pública. Mas os pouco mais de 5 mil quilômetros quadrados de extensão estão em processo de expansão, com a construção de novos bairros e empreendimentos públicos e privados em vista.
Se, por um lado, o fenômeno da gentrificação expulsa os moradores da cidade, por outro, a chegada de novos empreendimentos — incluindo um novo bairro de alto padrão e de luxo — alimenta expectativas de uma Inocência que ainda não existe no mapa.
Essa movimentação já pode ser observada ao visitar o município: dezenas de ruas recém-asfaltadas, lotes recém-abertos e prédios de habitações populares em fase de construção ainda não ganharam nome e endereço no Google Maps. Além disso, a entrada da cidade ganhou um ‘anel viário’ e um reordenamento de trânsito.
Embora a cidade esteja em pleno desenvolvimento, a população local menos favorecida começa a sentir o peso da promessa do luxo e debandar para regiões mais afastadas ou para municípios vizinhos, ao mesmo tempo que um novo empreendimento promete elevar o padrão de vida em Inocência, com ruas largas e arborização.
O bairro em questão, batizado de “Nova Inocência”, está sendo projetado para atender a demandas por lotes comerciais e residenciais, com amplas calçadas e vagas de estacionamento.
Recém-chegada na cidade, a professora Rosângela Santos Batista, de 46 anos, natural de Sergipe, mudou-se com o marido para Mato Grosso do Sul há 12 anos.
Eles moraram inicialmente em Três Lagoas, onde possuem uma loja de roupa masculina, e partiram para Inocência no final de 2025, a fim de inaugurar um restaurante de comida nordestina. Conforme observa Rosângela, a cidade não está dando conta do ‘boom’ da celulose.
Assim, além do aluguel caro, a alimentação e os insumos para o restaurante apresentam preços muito elevados. “Temos que ir buscar insumos em outra cidade.” Por fim, como boa parte dos trabalhadores que estão migrando para o município são nordestinos, Rosângela expressa que tem clientela fiel e que o objetivo é conquistar também os sul-mato-grossenses.

A secretária Flávia de Souza da Silva Ramos, de 39 anos, passou anos morando fora do Estado e, entre idas e vindas, estabeleceu moradia fixa em Inocência, há dois anos. Ela relata que os impactos culturais e a promessa de luxo já são bem visíveis: cada vez mais, Inocência perde a característica pacata e passa a se assemelhar a uma “cidade grande”.
“Aqui em Inocência, antigamente, tinha a visão da cidade dos aposentados. Hoje, não mais! Hoje, é uma cidade que a gente, que já morou em cidades grandes, já está mais adaptado do que quem mora aqui e nunca saiu daqui. Então, mudou muito. Mudou o movimento, a população cresceu. Por exemplo, antes não tinha tanto emprego na cidade, hoje você pode escolher, não trabalha quem não quer”, expressa Flávia.

A comerciante Fabiana de Souza da Silva Reis, de 44 anos, dona de uma loja de roupas country, expressa que, com a chegada de novos moradores de diversas regiões do Brasil, o choque cultural a fez investir em novos estilos de vestimenta para se manter competitiva no mercado.
“A gente é forte nesse público [country], mas o pessoal que vem do Nordeste é outro estilo, então a gente teve que se adequar para poder atender eles também, porque é uma demanda bem grande. Ainda estamos nos adaptando, mas já conseguimos atender eles.”
Fabiana opina que ainda há espaço para os comerciantes crescerem junto da cidade e cita que, de uns meses para cá, observou que muitos estabelecimentos no segmento de bares, lanchonetes e sorveterias abriram as portas.
No entanto, a comerciante pontua que Inocência precisa se desenvolver para que o comércio local não seja engolido pelos grandes empreendimentos. “A cidade precisa se desenvolver mais ainda para a gente que é menor, que estamos aqui há anos, não sentir tanto. Para nós, eu acho que dá para tentar [crescer com a cidade], a gente não pode desanimar, tem que persistir.”

Por fim, Fabiana expressa que está se adaptando às mudanças e que gosta de conversar com os migrantes. “Sempre que eles entram, eu pergunto de que região são, até mesmo para eu entender quem são. Eu acho interessante, eu gosto de conhecer pessoas novas, porque, no ramo que eu estou, sempre a gente interage com o pessoal que chega. Para nós, que somos de uma cidadezinha de oito mil habitantes, de repente [se deparar] com várias culturas diferentes é interessante, vamos nos adaptando.”
A gerente Vitória Medina, de 25 anos, relata que, embora a chegada da fábrica tenha impactado positivamente no mercado de trabalho, o ‘boom’ da celulose está levando os moradores da cidade ao limite. “Tem emprego, mas falta moradia por um preço mais justo, moradia mais acessível para as pessoas. Se não tiver um bom emprego, você não consegue morar aqui.”

Luxo das grandes empresas sufocam comércio local
Com todos os olhos voltados à Inocência, manter-se competitivo no comércio local, perante os grandes empreendimentos, é um desafio. O comerciante Henrique Oliveira de Souza, de 26 anos, relata que as vendas no mercado da família triplicaram nos últimos anos. No entanto, a maior dificuldade segue sendo a contratação de mão de obra qualificada.
Ele cita que é difícil para as pequenas empresas competirem com as grandes, pois não conseguem oferecer tantos benefícios quanto a indústria, por exemplo. “Acredito que tem muitas oportunidades, mas não dá pra competir, porque a gente não consegue oferecer auxílios, plano de saúde.”

Conforme relata o casal Adriano Pereira e Larissa Makye, donos do Nicola’s Restaurante, localizado na principal avenida do município, o principal desafio atualmente é competir com grandes empresas, que podem oferecer mais estrutura e benefícios. Além disso, o casal expressa que pequenos negócios acabaram ‘sufocados’ pelo déficit habitacional e elevado custo de vida. Larissa relata que, para eles conseguirem manter o restaurante aberto, o valor das refeições precisou ser reajustado, uma vez que o aluguel subiu 100% na cidade, no último ano.
“A pessoa que quiser vir para empreender, já tem que vir ciente de que tem que [investir em] um espaço para os colaboradores, porque você não acha colaborador na cidade. Os que têm, as grandes empresas já pegaram. Eles acabam dando mais benefícios para quem é local, então, como a gente é uma empresa de pequeno porte, a gente não consegue oferecer tudo aquilo que uma grande empresa consegue oferecer. Acaba que a mão de obra local foi toda para as empresas, e a gente ficou sem”, detalha Larissa.

Assim, o casal explica que não há casas para os trabalhadores que vêm de fora se instalarem e o custo elevado do aluguel também é um desafio. Para sanar o problema, o casal decidiu criar um alojamento masculino e outro feminino para seus colaboradores, já que a maior parte da mão de obra vem de fora da cidade. A falta de casas e lotes, inclusive, é citada pelo casal como um entrave para o crescimento do comércio local.
“[Oferecer alojamento] fica melhor para conseguir achar colaborador quando você posta a vaga. A gente tem cinco funcionários alojados, de Selvíria, Corumbá, Amambai e Ribas do Rio Pardo. A única funcionária que eu tinha que era daqui, a gente acabou perdendo por conta do aluguel alto. Então, hoje em dia, a mão de obra vem mais de fora”, explica Larissa.
Embora haja muitos desafios, Larissa e Adriano defendem que a decisão de deixar seus empregos e se mudar de Três Lagoas para Inocência, um ano atrás, foi acertiva. As vendas aumentaram 50% desde que abriram o restaurante, e agora o casal se prepara para expandir a cozinha. “É cansativo, mas vale a pena, sim, empreender. Não pode desanimar. Empreender é igual a um batimento cardíaco: um dia está lá em cima, outro dia está lá embaixo. É arriscado, mas é bom”, finaliza Adriano.
Apesar do avanço econômico registrado no último ano, o comércio local enfrenta desafios estruturais, ocasionados pela nova dinâmica imposta pela indústria de celulose. Conforme avalia a presidente da Associação Comercial do município, Lina Luiza, a cidade vive um momento de expansão, com abertura de novos negócios nos setores de alimentação, hotelaria, transportes, estética e prestação de serviços, além da formalização de MEIs (microempreendedores individuais).
Desta forma, o número de associados à entidade praticamente dobrou, saltando de 58 para 100 empresas. “A gente está com muita empresa de fora e até mesmo os empresários daqui estão se renovando, melhorando, crescendo. Eu penso que ainda tem muito espaço para eles crescerem. Está acontecendo muita mudança em Inocência e está tendo um impacto bem positivo nessa parte de criação de empregos e abertura de empresas.”

Falta qualificação
No entanto, o ritmo acelerado impõe desafios que exigem planejamento e adaptação por parte dos empreendedores locais. Um exemplo disso são os gargalos gerados pela falta de mão de obra. Lina explica que, embora haja trabalhadores no mercado, o perfil deles mudou, pois, com o aumento da renda per capita, os profissionais estão mais qualificados e, consequentemente, mais exigentes em relação a salários e benefícios.
“Ainda tem mão de obra, só que ela está ficando escassa, porque é uma mão de obra específica para a fábrica, e os outros tipos de mão de obra que a gente tem, de Inocência, estão se capacitando, eles são mais exigentes. Então, pequenas empresas terão que se adaptar às novas rendas.”
Além disso, a presidente demonstra preocupação com o chamado ‘efeito curva’, já observado em municípios como Ribas do Rio Pardo, que, após o pico das obras da Suzano, sofreu redução na demanda por serviços e queda na ocupação hoteleira da cidade.
Diante deste cenário, a Associação Comercial já discute estratégias junto ao Sebrae, para que os empresários estejam preparados para enfrentar a desaceleração, após a inauguração da fábrica. A principal orientação é que os empreendedores adotem um planejamento financeiro, abram poupanças e tenham cautela nos investimentos.

Novos empreendimentos em vista
Conforme o prefeito, Antônio Ângelo Garcia dos Santos, o Toninho da Cofapi (PP), Inocência tem 96% de cobertura de tratamento de esgoto, e cerca de 98% das ruas asfaltadas. Além disso, a cidade conta com três escolas municipais e duas estaduais, além de uma creche com capacidade para atender 200 crianças. A saúde conta com um hospital e três postos de saúde.
Até o segundo semestre do ano, o prefeito estima que seja dado início à construção de duas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e duas novas escolas, sendo uma estadual e a outra municipal, ampliando o número de vagas no ensino público. Também estão previstos novos investimentos na infraestrutura dos atendimentos da área de assistência social do município.
Na iniciativa privada, o Sesi-MS e o Senai-MS deverão construir, ainda este ano, duas escolas: uma destinada a crianças e jovens e outra para treinamento de professores, em uma área de 34 mil metros, e investimento em torno de R$ 50 milhões. Já a Arauco deve construir um hospital.
“Nós temos três loteamentos grandes, que já estão em andamento. A gente precisa abrir espaço para as pessoas virem para cá, para o mercado vir para cá, para todo tipo de investimento que venha atender o desenvolvimento da cidade”, enfatiza o prefeito.

Fábrica
A fábrica de celulose da Arauco está em fase de montagem, com uma estrutura industrial dividida em “ilhas de processo”, modelo que organiza as diferentes etapas da produção. À direita do canteiro principal, funciona a área de pré-montagem, onde equipamentos são organizados e preparados por montadoras e construtoras, antes de seguirem para instalação definitiva na planta.
Um dos principais complexos é a ilha de geração de energia, que abriga três turbogeradores, sendo dois de condensação e um de contrapressão. Conforme explica o executivo de projetos da fábrica, Leonardo Crociati, a capacidade é de 556 MW (megawatts), cuja parte da energia será consumida pela própria unidade, enquanto cerca de 200 MW deverão ser exportados ao sistema nacional. O volume é suficiente para abastecer uma cidade de aproximadamente 800 mil habitantes. A estrutura inclui subestação, sala elétrica e conexão com a linha de transmissão.
Já na área industrial, a produção é organizada em etapas que vão desde a chamada “parte úmida” até as prensas, passando por três linhas de secagem e culminando nas linhas de embalagem. O complexo contará, ainda, com uma sala central de controle, responsável pela automação e operação integrada da fábrica. Leonardo afirma que o projeto foi concebido com tecnologias alinhadas ao conceito de “indústria 5.0”, com previsão de chegar à operação plena até 2028. A produção terá ramp-up gradual, até atingir a capacidade total, estimada em 11 mil toneladas de celulose por dia.
Água tratada

Portanto, a planta também inclui torres de resfriamento para reaproveitamento de água no processo industrial, além de estação de tratamento de efluentes, com capacidade equivalente à carga orgânica de uma cidade de três milhões de habitantes. A água captada será tratada, utilizada no processo e devolvida após passar novamente por tratamento.
O galpão onde serão armazenados os produtos já finalizados será interligado diretamente a um ramal ferroviário interno de 9 quilômetros, conectado a outros 45 quilômetros até a malha Rumo Norte. A logística prevê o escoamento da produção até o porto de Santos (SP).
No momento, há 9,2 mil trabalhadores da construção civil operando nas obras. A previsão é de que se atinja um pico de 14 mil homens no segundo semestre de 2026. O cronograma está em dia, com 44% da construção avançada. A previsão de partida da fábrica é para o final de 2027, empregando entre 800 e 900 trabalhadores.

Linha férrea
A ferrovia terá 9 km dentro dos limites da fábrica e mais 45 km até a Rumo Malha Norte, ferrovia que vai até o Porto de Santos, no litoral paulista. Segundo a Arauco, a expectativa é escoar 3,5 milhões de toneladas de celulose, principalmente para a Ásia.
“Essa ferrovia nasceu junto com a fábrica, ela não foi pensada como elemento, mas como parte do processo industrial. Por isso, cada detalhe foi desenhado para garantir a essência, eficiência, fluidez e, principalmente, segurança”, diz Alberto Pagano, diretor de logística e suprimento da Arauco.
Serão 721 vagões e 26 locomotivas operando. “Ao priorizar o modal ferroviário, estamos retirando cerca de 190 caminhões por dia das rodovias. Isso significa estradas mais seguras, menos desgaste da infraestrutura pública e um ganho ambiental significativo”, destacou Pagano.
Desta forma, a linha férrea vai seguir paralela às rodovias MS-377 e MS-240, atravessando exclusivamente áreas rurais de Inocência. Para segurança de quem mora nas propriedades rurais, serão construídas passagens inferiores e superiores, além de remanejamentos viários e ajustes específicos para a travessia de animais.
Serão impactadas 40 propriedades, cujos proprietários serão devidamente atualizados sobre a obra, mesmo autorizada pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Assim, as obras só vão seguir após a concordância entre a empresa e o produtor rural.
(Foto: Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)














