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Roteiros de descarbonização na produção de celulose: da energia renovável às operações carbono-negativas

Jino John

Uma caldeira de recuperação em uma fábrica de celulose no sul dos Estados Unidos agora faz mais do que gerar energia. Ela captura o dióxido de carbono proveniente da combustão do licor negro e o armazena permanentemente no subsolo.

Em 2024, a Microsoft concordou em adquirir 3,7 milhões de toneladas de créditos de remoção de carbono dessa unidade. O preço informado — cerca de US$ 210 por tonelada — é menos da metade do custo da captura direta do ar.

Não se trata de um projeto demonstrativo. É bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) em escala comercial, criando uma nova fonte de receita enquanto a fábrica continua produzindo celulose sem alterar seu processo central.

A indústria de celulose ultrapassou um ponto de inflexão estrutural. As fábricas já não estão focadas apenas na redução de emissões; começam a operar como removedoras líquidas de carbono, retirando mais CO₂ da atmosfera do que emitem ao longo de grande parte de sua cadeia de valor — e monetizando essa remoção.

A MATEMÁTICA QUE MUDOU A EQUAÇÃO

As fábricas brasileiras de celulose de eucalipto já operam com participação muito elevada de energia renovável, frequentemente acima de 80%, impulsionadas pela queima do licor negro e de resíduos de biomassa. As unidades da Suzano em Mucuri, Imperatriz e Três Lagoas são autossuficientes em energia e exportam eletricidade excedente para a rede. Apenas em 2021, a Suzano vendeu aproximadamente 1,5 milhão de MWh de energia excedente.

A energia renovável, no entanto, nunca foi o objetivo final.
A maior oportunidade está no próprio carbono.

A combustão do licor negro libera CO₂ biogênico — carbono absorvido da atmosfera durante o crescimento das árvores, muitas vezes poucos anos antes da colheita. Historicamente, isso era tratado como neutro em carbono. Hoje, a lógica mudou: capturar e armazenar permanentemente esse CO₂ transforma a neutralidade em emissões líquidas negativas.

A escala é relevante:

  • Uma fábrica típica de celulose kraft emite entre 75% e 100% de CO₂ biogênico, dependendo do combustível do forno de cal;

  • As caldeiras de recuperação respondem pela maior parcela das emissões;

  • Globalmente, fábricas de celulose kraft poderiam, tecnicamente, capturar cerca de 135 milhões de toneladas de CO₂ por ano;

  • Na América do Norte, fábricas de papel e celulose emitem aproximadamente mais de 140 milhões de toneladas por ano, a maior parte adequada à captura.

CO280, desenvolvedora por trás do contrato de offtake da Microsoft, avança com mais de 10 projetos de captura de carbono em fábricas de celulose na América do Norte. Quando em operação, esses projetos devem entregar até 7 milhões de toneladas de remoção de carbono por ano, com várias unidades já em fases de pré-FEED e FEED. As decisões finais de investimento são esperadas entre 2026 e 2028.

A viabilidade econômica decorre do fato de que grande parte da infraestrutura já existe. As fábricas adaptam sistemas modulares de captura às caldeiras de recuperação, separam o CO₂ dos gases de combustão, comprimem-no e o transportam — muitas vezes por redes compartilhadas de dutos — para armazenamento geológico profundo, como aquíferos salinos a mais de um quilômetro de profundidade.

A BASE CARBONO-NEGATIVA DO BRASIL

Em 2021, a Suzano anunciou a meta de remover 40 milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera até 2025 — cinco anos antes do cronograma original. Até 2024, a empresa já havia removido 15,2 milhões de toneladas de CO₂e, o equivalente a 38% da meta revisada.

Essas remoções superam as emissões de Escopos 1 e 2 da Suzano e compensam parcialmente as emissões de Escopo 3. De forma relevante, são mensuradas, verificadas por terceiros e divulgadas publicamente.

O resultado é impulsionado por três mecanismos:

  1. Plantações de eucalipto de alto rendimento, que sequestram carbono rapidamente;

  2. Grandes áreas de conservação que protegem estoques de carbono existentes;

  3. Melhoria contínua da eficiência operacional.

A Suzano também mira uma redução de 15% na intensidade de emissões (tCO₂e por tonelada de produto) até 2030.

Mesmo com essa base carbono-negativa, as fábricas brasileiras avaliam agora a implantação de BECCS, de forma semelhante aos projetos em andamento na América do Norte. Dada a já baixa intensidade de emissões no Brasil, a captura de carbono pode posicionar os produtores brasileiros como os fornecedores de celulose de menor pegada de carbono no mundo.

O alinhamento regulatório começa a ganhar forma:

  • Política Nacional de Descarbonização Industrial (PNDI) classifica papel e celulose como setor prioritário;

  • Em dezembro de 2025, o governo abriu consulta pública sobre as regras para transporte de CO₂ e armazenamento geológico;

  • TotalEnergies comprometeu mais de US$ 155 milhões no desenvolvimento de CCS offshore no Brasil;

  • Petrobras destinou cerca de 14% de seu portfólio de descarbonização de US$ 6,4 bilhões (2026–2030) para CCS e uso de CO₂.

UM CONJUNTO TECNOLÓGICO COMERCIAL

A captura de carbono baseada em aminas opera há décadas nos setores de refino, química e processamento de gás. Sua aplicação em fábricas de celulose não é experimental — trata-se de um desafio de escala, não de tecnologia.

O sistema Just Catch™ 400, da SLB, pode capturar até 450 mil toneladas de CO₂ por ano, um porte compatível com as emissões típicas de uma caldeira de recuperação. A tecnologia acumula mais de 60 mil horas de operação em diferentes condições de gases de combustão.

Sistemas modernos alcançam rotineiramente eficiência de captura entre 80% e 95%. Com cerca de 90% de captura, uma fábrica de celulose kraft de eucalipto pode sair de emissões levemente positivas para aproximadamente –1 tonelada de CO₂ por tonelada de celulose seca ao ar.

Outras rotas em avaliação incluem:

  • Calcinação elétrica por plasma para fornos de cal, gerando correntes quase puras de CO₂ biogênico;

  • Gaseificação do licor negro, com potencial para reduzir emissões e produzir intermediários químicos.

REMOÇÃO DE CARBONO COMO SINAL DE MERCADO

O acordo da Microsoft com a CO280 reflete uma decisão estratégica de compras, não filantropia corporativa. A empresa se comprometeu a ser carbono-negativa até 2030 e a remover emissões históricas até 2050. Hoje, o BECCS representa a maior parte de seu portfólio de remoção de carbono.

Créditos de remoção de alta qualidade — definidos por permanência, adicionalidade e armazenamento verificável — são negociados atualmente na faixa de US$ 150 a US$ 250 por tonelada. O armazenamento geológico oferece durabilidade superior aos créditos baseados em uso da terra, com o CO₂ isolado por milênios.

Para as fábricas de celulose, a remoção de carbono introduz diversificação de receitas. Enquanto os preços da celulose oscilam ciclicamente, a demanda por créditos de carbono está vinculada a compromissos climáticos de longo prazo e a trajetórias regulatórias.

IMPLICAÇÕES COMPETITIVAS

Os produtores brasileiros já competem globalmente em custo, rendimento e escala. A remoção de carbono adiciona uma nova dimensão competitiva.

À medida que clientes a jusante na Europa e na América do Norte enfrentam exigências mais rigorosas de divulgação climática e descarbonização da cadeia de suprimentos, a celulose carbono-negativa pode capturar um prêmio. A conformidade regulatória, como a EUDR, será necessária, mas insuficiente por si só.

Projetos greenfield — como Sucuriú, da Arauco, e Bataguassu, da Bracell — têm a oportunidade de integrar a captura de carbono desde a concepção, evitando riscos de retrofit e reduzindo o custo marginal.

RESTRIÇÕES E RISCOS DE EXECUÇÃO

O BECCS não está isento de desafios:

  • A captura de carbono reduz a energia líquida disponível;

  • Os investimentos de capital podem ultrapassar centenas de milhões de dólares por unidade;

  • Nem todas as fábricas têm acesso imediato a armazenamento licenciado;

  • O arcabouço regulatório de CCS no Brasil ainda está em finalização;

  • As metodologias de contabilidade de carbono continuam evoluindo.

A sustentabilidade da biomassa permanece um tema sensível. Produtores brasileiros afirmam que a implantação de BECCS se apoiará em plantações e áreas de conservação existentes, e não em novas conversões de terra — uma afirmação que exigirá transparência contínua.

CONCLUSÃO

A indústria de celulose está estruturalmente bem posicionada para a remoção de carbono. As fábricas já operam com bioenergia, concentram emissões em caldeiras de recuperação e atuam em escalas que sustentam a viabilidade econômica da captura. A tecnologia é comprovada. A infraestrutura, em grande parte, já existe. O mercado está pagando.

O desafio restante é a execução: licenciamento, financiamento, padronização e escala.

Os produtores que se moverem primeiro não apenas reduzirão emissões. Eles monetizarão a remoção de carbono, estabilizarão receitas e reposicionarão a fabricação de celulose como parte da solução climática.

portalcelulose

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